Diana-Dru, entre nós e laços


Sexta-feira , 29 de Abril


Eles, os Poetas


Desdobrando das dobras
Walt Whitman


desdobrado das dobras da mulher
o homem se desdobra e está sempre
por vir a se desdobrar;
desdobrado da mulher mais soberba da terra
está por vir o mais soberbo homem da terra,
desdobrado da mulher mais amigável
está por vir o mais amigável dos homens;
só desdobrado do corpo perfeito de uma mulher
podem criar-se os poemas do homem
(é só daí que vêm os meus poemas),
desdobrado da arrogante e forte mulher que eu amo
só daí é que pode vir
o homem forte e arrogante que eu amo,
desdobrado dos abraços vigorosos
da mulher firme que eu amo
é só daí que vêm os vigorosos abraços do homem
desdobrada das dobras do cérebro da mulher
procedem todas as dobras do cérebro do homem
umas seguindo as outras obedientemente,
a desdobrar-se da justiça da mulher
toda a justiça do homem se desdobra,
desdobrada da simpatia da mulher
é toda simpatia;
grande coisa é um homem pela terra
e pela eternidade,
mas cada vírgula da grandeza do homem
tem sua origem na grandeza da mulher
-primeiro o homem toma forma na mulher
e só depois pode tomar forma em si mesmo


O autor: nasceu em 1819, em Long Island, perto de Nova York numa casa modesta. Passou a infância no Brooklin. Aos 20 anos, era impressor, dava aulas para crianças e tinha fundado um jornal no qual ele escrevia, imprimia e distribuía. Em seus poemas, exaltou os trabalhadores da América, e defendeu a liberdade individual, a fraternidade democrática e a igualdade de raças. Aos 54 anos, sofreu de um mal que o deixaria de cama pelos 20 anos seguintes. Morreu em 1892. Era um dos poetas preferidos de Fernando Pessoa.


Escrito por Diana-Dru às 17h19
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Segunda-feira , 25 de Abril


Beijo na boca


 

Lábio com lábio. Língua com língua. Tudo é melhor com beijo na boca. Não vale beijo técnico, para as câmeras. Tem que fazer estalinho, arrepiar pelinho da nuca e provocar aquele ronronar não-humano, felino. É mais íntimo que a máxima intimidade imaginada, porque compartilha oxigênio e gás carbônico num único fôlego, quando a inspiração de um faz a expiração do outro, no descompasso das sístoles e diástoles, disparadas no instante afogado.
Beijo na boca é devoração mútua. Pode ser devagarinho, na lenta aproximação das bocas, bitocas suaves, de intenso crescente. Ou já começa num choque violento, avidez de quebrar o dente. A coreografia do beijo é complexa mas sempre improvisada. E quase ninguém erra o passo, uma dança que se nasce sabendo.
Na hora do beijo, não conta mais papo nem roupa de grife, é tudo suspiro e olho fechado. E que cada um saiba de si onde cada outro tateia. Quem beija se entrega. Pode não gostar mais dali a um segundo, dizer que só ficou, que era da hora. Agora, num átimo, o sentimento resvala. É quando se perde os sentidos e a razão vai pro espaço sideral.
Tem gente que beijou na boca e nunca mais voltou. São aqueles que se tomam de paixões, andam por aí com a alma mais presente que o corpo. Porque a possibilidade do beijo está sempre presente. Para viver com intensidade real, no tempo exato de cada ato. Viver de verdade, com entrega absoluta, sem concessão, sem desculpa esfarrapada, sem adiamento. E que tudo se faça com beijo na boca, real ou imaginário. Pois com beijo na boca é muito, muito melhor.


Escrito por Diana-Dru às 14h56
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Sábado , 23 de Abril


Curtos, breves


sem freio, sem rima. convenço verso.

 

 

 

meu labirinto

a poesia pagã por batismo

rascunhada 

sem selo


Escrito por Diana-Dru às 09h15
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Quinta-feira , 21 de Abril


Questionário


Dorita Vilela, obrigada. meu beijo...

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Como o destino incerto: Itinerário de Pasárgada, por Manuel Bandeira, ed. 1957

 

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

De poesia, sim. Todas as mulheres reverenciadas pelos grandes poetas de nosso tempo e além...

Elejo o poema “Matilde”, de Pablo Neruda. Impossível não querer trocar de nome...é perfeito.

 

Qual foi o último livro que compraste?

“De tanto andar numa região que não figurava nos livros acostumei-me às terras tenazes em que ninguém me perguntava se me agradavam as alfaces ou se preferia a menta que devoram os elefantes. E de tanto não responder Tenho o coração amarelo.”

“O Coração Amarelo”, Pablo Neruda, L&PM

Escrito por Diana-Dru às 12h55
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Que livros estás a ler?

De novo: João Cabral (Poesias Completas); Fabrício Carpinejar (Cinco Marias); Novo: João Gilberto Noll (O Lorde);  

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Apenas 5 ? Impossível!!!

Clarice Lispector (Perto do Coração Selvagem); Fernando Pessoa e Cia. (Obra Poética); Pablo Neruda (O Livro das Perguntas); Manuel Bandeira (Antologia Poética);Carlos Drummond de Andrade (Antologia Poética); Cecília Meireles (Obra em Prosa - Volume 1); Walt Whitman (Folhas das Folhas de Relva) 

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?

 

Mario Cezar

Linaldo Guedes

Elise

 

“Aprendo mais quando leio que quando teimo poemas.”


 

Escrito por Diana-Dru às 12h54
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Quarta-feira , 20 de Abril


Navegante


O Cruzeiro do Sul como as primeiras estrelas, também busca farol.

 

 

As mãos sobre mim

navegam sem bússola

 

O tato encantado

vencendo os recifes

toma-me ilha

 

O olhar líquido

sobre alma litorânea

iça velas

 

Meu corpo

agora é porto

até o cais da tarde


Escrito por Diana-Dru às 01h05
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Segunda-feira , 18 de Abril


Amar na corda bamba



Minha estante é cheia de pensamento dos outros. Tenho olhar que desalinha livros. Cada um em seu lugar.

Tenho o hábito de andar pela rua desarrumando pessoas.Vitrines mostram exatamente o que se projetou ver. Sei de uma porta secreta que dá lugar ao que fica escondido. Devo estar abarrotada com verso que não encontra saída. Por isso olho bem pra o que voa até não conseguir mais ver. Quando corro os olhos pelas vitrines que andam e falam, eu cravo sorriso de gente.

Temo silêncio encorpado que poda tudo à minha volta. O desespero me desafia. Contraio a razão quando compreendo poesia. Mil cacos em papel guardam de mim a palavra amassada. Nenhuma frase sozinha é chuva que compreende ilha. Sempre me falha o barco à hora de abraçar o cais.


Escrito por Diana-Dru às 10h19
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Quinta-feira , 07 de Abril


"Re-dizendo"


 

“Tem gente que costura pra fora. Eu costuro pra dentro.”

Clarice Lispector

 

Tem dias que caço. Em outros sou a presa fácil. Instinto de sobrevivência aflorando em mim. Machuca-me e convence de que é assim. E aí eu cedo. Berro antes mas sempre cedo. Atropela-me com seu jeito manco de vir em minha direção. Sempre lhe falta uma parte. O todo não aparece e a corrente parece frágil, vai quebrar. Aí eu fujo de novo. E ligo a televisão. E ouço música e também leio. Ela atravessa todos os cômodos e vem sentar-se à minha frente. Olhar sereno de espera acumulada. Eu, quieta. Meu medo é o único que não escreve nada...

 

 

Beijou a colher que levou aos lábios o alimento e despediu-se da fome. Queria muito resgatar o pensamento roubado da noite anterior. O café espiava ainda quente, da xícara bordada com batom desde as sete da manhã. O relógio preguiçoso não esboçava a que horas precisaria começar a viver.

E ela olhava para as unhas pensando em como fazer a curva daquele dia. Chegar sem pressa ao vestíbulo onde a roupa se escondia. A cadeira a deixou levantar-se. Sábia de que ela não daria muitos passos para longe dali. O rádio desligado lembrava a canção antiga de infância. Como era mesmo? De pé, olhou em volta e viu que pouca coisa tinha a resolver na cozinha disposta a abrir-lhe todas as torneiras. Mas não queria isto. Não era abrir que sentia. Fechada como a lata de ervilhas no armário, precisava era trabalhar a vontade de ser caixa. Baú. Lagarto espreguiçado em jardim inventado. Sob um sol inclemente e diário. Como tudo na vida. Como tudo até então na sua vida, nada passava em branco.


Escrito por Diana-Dru às 19h35
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Segunda-feira , 04 de Abril


Magrela


 

A lua magrela soluça sobre os fios enquanto a cidade adormecida é tão úmida quanto margem de rio.

Que liberdade te encontraria naquela rua estreita, fosse ela uma transversal acesa para os sonhos assentados no fundo dos olhos?

 

É uma saga, toda essa coisa alheia. Como madrugada apavorando a um resto de noite, minha poesia é magra, cambaleante. Mirando o pássaro poético: o vôo é sempre imprevisível, alarmante.

 

                                                                                                        

                                                                                                                   * para Mario Cezar, a Faca de Fogo


Escrito por Diana-Dru às 19h01
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