as palavras espalhavam-se sobre o colo e denunciavam as noites, entranhas mal dormidas...talvez. mas lhe bastava um generoso olhar sobre algum horizonte e entendia direção, o que quer que fosse futuro. são as circunstâncias que tecem os poemas carregados de farto lirismo ou seria a realidade, manuseada, para melhor detê-los? jamais saberia. pouco interessada que estava em descobrir até onde iam as falcatruas, os malabarismos técnicos que poetas (re)inventam, insolitamente, magistralmente, para compor uma sua realidade. desta feita, buscava era ins-piração. aprenderia a respirar direito, era assim preciso: o ar de todo bom poeta estava recoberto por uma fina camada de profunda esperança. e tudo aquilo, recôndito, muito calado, beirava alguma insanidade, promovendo transfiguração nos verbos: imagens versus palavras. se à sua volta tudo lhe parecia rotineiro, o quê então fazia com que a palavra levitasse, brincasse sobre a mesa ou em seu colo, compondo aquela ciranda de músicas, as mais antigas, apesar das letras esquecidas, ainda assim soando como muito boa canção? ela andava era saudosa de lápis, caneta. e espichando-se sobre uma folha em branco desdenhou mentalmente espaço para um poema afim. por horas estava ali, espremida entre a comoção do poder sobre tudo escrever e a emoção candente de que nenhuma palavra tinha-lhe qualquer resguardo. olhando de novo para o horizonte da tão “enaltecida noite”, inteira à sua frente, dedicou aquele poema calado, sem registro em papel. seria isto ins-piração: o que se permite escrever, não só pelo que se sente mas pelo que se imagina...? "e se escrever for muito mais que sina, o teu ofício, buscarás o signo, a palavra. e encontrarás o significado para o que quer que seja obrar.”