Diana-Dru, entre nós e laços


Segunda-feira , 28 de Fevereiro


Lendo e pensando sobre o que ele (d)escreve: Affonso Romano de Sant'Anna


ESCRITA IMPREVISÍVEL

by Affonso Romano de Sant'Anna para o novo livro

Estamos escrevendo todos dentro do previsível.

Um trabalha a forma
outro solta o texto
num exercício de auto-estupefação
alguns conferem tudo
com teorias da moda
outros aplicam mais tempo
na imagem que na obra.

Estamos todos escrevendo dentro do previsível.

Segue a vida literária:
cada um polindo seu nome de autor
quando de repente
não se sabe de onde como nem por quê
irrompe o texto inovador
sagrado e transgressor
que nos resgata
com olímpico fulgor.

O texto que torna o texto alheio
um punhado de palha
ungida
       _com inútil suor.


Escrito por Diana-Dru às 11h59
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Terça-feira , 15 de Fevereiro



Espelho, Relevo, Contraste, Espadas: pasmo meu...

Mudei a posição do espelho que mirava-me como quem entrega correspondência. A sala com seu ar alegre, fiel à minha babel de cores. Tons de terra,  ocre. Vermelho e amarelo vivo. O lilás serpenteando molduras e paredes delicadamente franzindo o cenho do branco. Senhor e paz. As cores sempre vibraram por boa causa: cacem-me os defeitos. Eis que meu quadro para avisos pessoais intima: é preciso colorir janelas urgentemente.
Talvez desdobrar cortinas. Um báu relaxado à um canto desprende as lembranças que saltam diante dos meus olhos. Ameaçam escapulir por uma janela, fugir talvez. Sorrio e ofereço-lhes colo.
O chá preferido aromatiza a casa. Da sacada, silêncio: a rua espreita de baixo para cima, o tamanho do que sonho. “Por quê tão alto, moça?”
Darei outra cor à moldura do espelho. Olha-me a mulher para além de mim refletida. Ela sou eu e o que há nela é o que sou. Gosto de jasmim. Gosto de fim de tarde sorvida em goles caprichosos de chá. Com  rua passeando por mim cada vez mais quietinha...


Escrito por Diana-Dru às 12h37
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Quarta-feira , 09 de Fevereiro


A Um Mestre Com Carinho...


  ao Prof. Manuel...                 

 

Os sonhos empoeirados espalhavam-se sobre a mesa, forasteiros. O cigarro abrasava o olhar de sorriso apagado. A vida meneava a cabeça para um lado e outro. Os poemas de papel brotavam sólidos sob os pés. Erva daninha crescia à soleira da porta. As poucas flores num vaso debochavam  do silêncio. Incolor também era uma cor d’alma e ímpeto deveria ser nome de vento muito, muito breve...

 

Erguera muros para o mundo: como proteger aquele pátio vazio? Coração celeiro...Cartas e mais cartas não entendiam mas um jardim assentara-se no peito. A única saída era seguir por onde as portas esperam.

 

A solidão podia ser tocada. Um sonho esgotado de vida descansando sobre a mesa. Um outro cigarro e compreendia fumaça. Por quê a solidão sempre despista a vida? A vida...

 

O céu era muito mais azul àquela hora, mesmo a vida sorrindo qual móvel pesado a exibir mil rostos. Uma estante forte suporta mesmo o peso dos anos, ou só livro, velhos amigos e passado? 

 

Era preciso pedir perdão ao passado. Voltar à sala de aula. Àquelas meninas de sorriso farto. Garotas de Machado, Capitu-rando pensamento, mastigando com chicletes o velho sorriso ranzinza. A literatura: ouro ou pó? Poema, prosa, palavra, que importa? Era um seu sentinela, em vigília.           


pé de vento

fortalece árvore

aurora

espreita estrela

 

eu cobiço

desejo

...

 

minha folhagem avulsa

ah, castanhos olhos...

fruta ainda no pé

pensa em quê?


Escrito por Diana-Dru às 04h54
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Quinta-feira , 03 de Fevereiro


Salto sim, Vôo Também


                                                                                                               

Quando dor é atropelo
confesso ao espelho

Irrito sorte

Reanimo flor
transformo pote

Salto alto

Aquieto escadas
quedo livre

um novo corte

um fio de esperança
tolo
moço


Escrito por Diana-Dru às 12h52
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Caderno de Viagem, 24 de janeiro 2005


(detalhe de um dos 7 salões da Gruta de Maquiné, Cordisburgo, MG)

Os Segredos em Maquiné...

venceram o nó apertado que a boca amargava quando sorria. Preguei palavra calada, minha coleção de botões. Madrepérola em forro d’alma aveludado com um terço de poema. Uma contorcida oração em silêncio porque as esfinges ainda resfriam os segredos esculpidos pelo fogo. O tempo que não os devora ainda queima...


Escrito por Diana-Dru às 12h35
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Terça-feira , 01 de Fevereiro


Rasuras (Caderno de Viagem, entre os dias 23 e 24 de janeiro de 2005)


(na estrada que leva à Cordisburgo, o olhar vai ganhando soltura e foge alto...)

Cordisburgo está lá. Com o tempo escorrendo lânguido entre ruas e gente. O sertão de Guimarães Rosa espiando a tudo e todos, do alto e para todos os lados. Espalhados pela pequena cidade, os fiéis cumprem sentença para entender suas próprias veredas.
Caminhar pelo universo do escritor é mágico. Despista-se a razão, empina-se a própria sina sobre um misterioso alazão e cumpre-se assim, a jornada silenciosa.
Quem cata vestígios, encontra pistas. Desentende mundo e compreende o que é conspirar com as coisas simples.
A velha casa virou museu para que qualquer olho possa alcançar lembrança. Não vale bulir. Não se deve corromper o silêncio que descansa as coisas do moço. O Grande Sertão, Veredas, guarda segredos de viagem. E ele bem sabia: só descobre quem cisma. É sina de coração.

(máquina de escrever usada pelo escritor Guimarães Rosa)

O cotidiano não me entristece. Nem me queima a rotina das horas, dos homens, nem de todas as coisas. O que me causa pasmaceira absoluta é esse cansaço encantado de quem não encontra descanso se não escreve...

Já tentei ver melhor o mundo por janelas. Também espiei por vigias. Nenhuma me trouxe visão melhor que esta, fora de mim. Porque o mundo pode mesmo parecer estreito se não aceitamos cruzar fronteiras para tecer destino. Ir além de onde se está... buscar o coração onde nunca se esteve antes. Depois, seguir viagem.


Escrito por Diana-Dru às 14h57
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