Tenho olhar espalhado. Vibro espasmos com a alma às escuras mas não estou cega. Duvido que o vento me faça cócegas onde não ache graça. Acredito em mãos e em pedidos. Aceito abraços para armazenar cheiros. Enfeito rostos para que as máscaras não inibam espelho. Miro entediada a fala que não atravessa alma nem corrompe paciência. Gosto de algumas cores misturadas e do barulho de sapatos com alguma direção nos pés. Prefiro não dizer nada. Muitas vezes calar é resguardar um filho. 40 dias ou 40 noites. Tenho verso que expira manso. Tenho poema mata espessa de palavra enlouquecendo sentido. Não tenho razão. Não guardo aflição. Reanimo-me cometendo o pecado de acreditar. Sou almofada indiana solta pelo chão. Apenas linhas bordadas pacientemente me acomodam entre os finos braços da poltrona preferida. Ancoro meu jeito de ser à janela para poder confessá-lo à rua. Sinto a imagem estremecer o espelho e sei, não é a cidade que abala. São murmúrios e essa fala miúda. Eu já vigiei bastidores, já estive em túneis engraçados cheios de espirais inventados para me entocar e sempre encontrei saída para uma porta e janelas com olhar avarandado. São altas as horas que acendem luminárias para este coração. Cultuo um lírio branco que ora pálido à luz da vela e mantém o olhar baixo quando sorri para a mesa que o detém fixo. A chuva deveria lavar abundantemente os cabelos e azular pensamentos encardidos. Secreta eu sou quando ouso. Meu olhar confessa que não me absolvo nunca. É que para lá do fim, tudo faz barulho. Acredito no medo sempre acompanhado de gente passando sozinha. Creio que quem guarda o orvalho de noites antigas batiza de novo o passado. O céu sempre queima os olhos que não sabem o destino das palavras que morrem na garganta e nunca no papel. Onde está o verbo, não sei. Talvez em algum lado escuro contrariado de verso que teima encontrar o avesso perfeito. Sou uma metade de alma que não julga o que descreve e não desdenha do que vê. Apesar de o céu queimar noite todo dia e as marés vibrarem com a lua, os mistérios que envolvem o amor ainda me comovem.


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