
Pra quando a alma açoitar, possa a paisagem aquecer.
I

o mistério é sísmico:
misto de sacro e profano
o que me desafia a cura:
a ferida aberta
o que contorce meu céu:
é o poema impossível
e o que faço
é chover
serpenteia o meu verso como folha precipitando-se distraída:
se a tua mão inibe o vento
toco

senhora
se teu bastão é o que move ciclos
grava-me no peito o broche da hora:
entender luz
O arvoredo segredou-me das ilhas que todos somos.
Para lá da tua mão.

queria teu abraço e também tua mão
teu amanhecer com verso emplumado
a tua boca ungida da minha salvação
Minha estante é cheia de pensamento dos outros. Tenho olhar que desalinha livros. Cada um em seu lugar.

Tenho o hábito de andar pela rua desarrumando pessoas.Vitrines mostram exatamente o que se projetou ver. Sei de uma porta secreta que dá lugar ao que fica escondido. Devo estar abarrotada com verso que não encontra saída. Por isso olho bem pra o que voa até não conseguir mais ver. Quando corro os olhos pelas vitrines que andam e falam, eu cravo sorriso de gente.

Temo silêncio encorpado que poda tudo à minha volta. O desespero me desafia. Contraio a razão quando compreendo poesia. Mil cacos em papel guardam de mim a palavra amassada. Nenhuma frase sozinha é chuva que compreende ilha. Sempre me falha o barco à hora de abraçar o cais.
O gerânio vibrou ao ouvir minha mão. Assim a palavra quando a alcanço. O resto passa. demônios do poeta

V
tentar rimar a sina
dá no que dá:
anverso
VI
ser projétil de palavra
tiro no escuro
VII
sobra de festa para olhos de poeta
é uma puta ressaca cheia de poema bêbado

demônios do poeta
III
nada segura mais seu olhar
que palavra fugindo
IV
viver pra não inventar
escrever é arriscar viver ou matar. quem não tem demônios não sabe assombrar-se.

demônios do poeta
I
escrever
II
se soubesse o tamanho do seu traço
abusaria do sem fim e pra sempre
Andou pelo dia todo com aquele par de sapatos escolhido. O que lhe apertava a garganta era o nó. Deixar a caixa de ressonâncias aberta era sinal de distração. A atenção voltada para o movimento do mundo. Sapatos de salto escoltam a vontade de caminhar léguas sem destino. Descortinada ela nunca seria. Poria seu dia em ordem assim que escrevesse em casa. E colocaria no papel os olhares que teimava ver. Todo o desejo que pensara comungar com o mundo. Alguém a viu e sorriu. Sorriso daquele imitaria até aprender. Olhou direito. Da janela, viu um menino entregando flor. Queria era ser flor para andar pela mão do menino e morrer doada viva. A vida passa depressa. Não que ela olhe. Mas o que fazer com o que vê?
Beijou a colher que levou aos lábios o alimento e despediu-se da fome. Queria muito resgatar o pensamento roubado na noite anterior. O café espiava ainda quente a xícara bordada com batom desde as sete da manhã. O relógio preguiçoso não esboçou a que horas precisava começar a viver. E ela olhava pras unhas pensando em como fazer a curva daquele dia. Chegar sem pressa ao vestíbulo onde a roupa se escondia. A cadeira a deixou levantar-se porque sabia que ela não daria muitos passos para longe dali. O rádio desligado lembrava aquela canção antiga de infância. Como era mesmo? De pé, olhou em volta e viu que pouca coisa tinha a resolver na cozinha disposta a abrir-lhe todas as torneiras. Mas não queria isto. Não era abrir que sentia. Precisava era trabalhar esta vontade de ser caixa. Baú. Lagarto espreguiçado no jardim inventado. Sob um sol inclemente e diário. Como tudo na vida. Como tudo até então na sua vida, nada passava em branco.
Se o meu riso encolher vou tirar a boca fora. De nada adianta sorriso que estremece boca que fala palavra incerta e ri-se dela sozinha. Vou parar de fazer perguntas com esta boca aqui. E parar de rir quando a graça não estiver contida em mim. Se não tenho palavra pra contar, a boca ri do quê? E quando eu vejo a boca refletindo no rosto o sorriso que eu não acompanho, me dá um nó de água no peito. E eu deságuo. É o que faz do meu riso um acontecimento meu. Só meu. "Se eu quebrar, você me cola?"
*este poema é pra você, Torin.
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