
Quando pensei sobre a idéia de refazer o blog (meu ex-blog, nem lembro o endereço e não era aquele zip net, não) até então, a idéia era um espaço "meu". Para escrever o que me trouxesse a tal da "ins-piração". Nada disso vai acontecendo. Adoro ler. Me impressiona, emociona, saber que há tanta gente boa e que alguns, são meus amigos. Gente por quem tenho imenso carinho. Gente que escreve. Sem pretensão. Sem intenção. Apenas esta mesmo. Escrever. Um beijo, Ruy. Que bom a gente ter se encontrado.
INVEJA DO CHICO?
by Ruy Barboza
Quando minha namorada ouve o Chico Buarque, costumo lembrar de duas pessoas: Ernest Hemingway e Eduardo Barreto. Hemingway diz que, se você quer que sua mulher tenha de você a imagem de um homem corajoso, nunca a leve para ver uma tourada. E o artista gráfico Eduardo Barreto é um dos muitos homens da minha geração que tenta achar defeito no Chico. De vez em quando Eduardo nos puxava para um canto: “Parece que a coisa agora é séria. Ele está com um tumor no cérebro”.
Caetano Veloso também tentou. No livro “Vereda Tropical”, lembra que ele e Chico ficaram conhecidos ao competir no “Esta Noite se Improvisa”, da velha TV Record. No programa, a produção dava uma palavra, e ganhava pontos quem lembrasse primeiro uma música cuja letra contivesse aquela palavra. Caetano diz que Chico só ganhava dele porque, muitas vezes, compunha músicas na hora, enganando a produção. Pura inveja, evidentemente - e perfeitamente compreensível, mesmo num compositor genial como Caetano. O conhecido incidente no Florentino, em que Chico deu uma valente cusparada em Millôr Fernandes, começou, para quem não se lembra, com a infeliz frase de Millôr, publicada nos jornais da época: “Não confio em Chico Buarque nem para tomar conta do meu cachorro”...
A inveja do Caetano, como se vê, é disfarçada, ressentida, vem num aparente elogio à capacidade de improvisação de Chico. A de Millôr apareceu raivosa, direta. Despretensiosamente, quero dizer que acho que os entendo.
Talvez se eu falar da minha inveja fique mais claro.
Morro de inveja do Caetano. Lembro-me, por exemplo, de quando ouvi pela primeira vez o disco de Londres, com “Maria Bethania” e “London, London”. Ao lado da emoção cívica e da impotente dor política que o exílio de Gil e Caetano nos causavam, e da admiração pela explosão da nova etapa do talento de Caetano, morri de inveja. Já quis ser cantor e compositor, tenho minhas musiquinhas. Meu sucesso ultrapassou as fronteiras domésticas, e duas pessoas - um vizinho e uma vizinha - me elogiaram. Mas estou longe de ser até mesmo, digamos, um Martinho da Vila. Caetano, então, nem pensar...
Tenho também um inveja assumidíssima do Millôr. Da erudição, da criatividade, da genialidade do Millôr. Inveja que começou na minha infância, com o Pif-Paf, em “O Cruzeiro” - “cada número é exemplar, cada exemplar é um número”. Eu lia, adorava, e quantas vezes, lembrando das frases de Millôr no meio das aulas, tinha de me conter, para não ter de explicar aos professores do que estava rindo - por exemplo: “alguns ficam na cama porque estão doentes; outros, porque se sentem muito bem”. Adolescente, tinha a fantasia de escrever coisas brilhantes como as do Millôr. Tenho aqui minhas tiradas, tão bem sucedidas quanto as minhas músicas, em casa e nas vizinhanças. Mas já sei que nunca vou escrever nem sequer como o Carlos Heitor Cony - quanto mais o Millôr Fernandes...
Muitas vezes, depois de ouvirmos o Caetano, falo da minha inveja. Minha namorada diz que cada um tem suas qualidades. Por exemplo, eu sou muito mais modesto que o Caetano, segundo ela. E a modéstia é uma qualidade importante. Quando falo da minha inveja do Millôr, ela diz que eu sou mais bonito do que ele. Não digo que não seja bom ouvir isso, mas sempre tenho uma sensação de estar sendo enganado.
Mas nunca tive inveja do Chico. Quanto ao Chico, sou tomado por um sentimento muito diferente da inveja. Nunca pensei em compor como o Chico, nem em ser bonito como o Chico, nem em escrever como o Chico.
Na verdade, eu queria mesmo é ser o Chico. É isso aí. Em vez de o Chico Buarque nascer, eu teria nascido, no lugar dele, e eu seria ele, inclusive com o nome dele, tudo direitinho. E se ele quisesse nascer também, podia nascer no meu lugar, e ele seria eu, é claro. Problema dele.
Quando falo disso para a minha namorada, ela me olha com um olhar pensativo. Acho que ela me entende, pois não diz nada, nada. Fica quietinha.
*publicado originariamente na revista “Caros Amigos”