Diana-Dru, entre nós e laços


Quarta-feira , 30 de Junho


Brasília, meu olhar Diana-Dru


Cidade nova entardecendo, avenidas e sinais, todos os ais, abrem-se.

Vê, bem lá, o horizonte alarga-se. Logo, ali não é tão longe.

Se o céu não tem fim, se ele é o mar assim, banhando a cidade.

 

O sonho passa pela estação, vem sempre o tempo da acolhida.

A vida, esta mesmo, louca, faz propostas para a vida.

Muda outra vez a marcha e segue, atravessa túneis.

Espalha batom na franja das nuvens, mancha a tristeza com blush.

Desdenha da pressa e corre porque o céu vestiu-se de laranja-outono

e a cara da cidade espelha as almas.

 

“Alma, tua cor hoje, há de nascer laranja !

Dourei reflexos de fruta e cor nos cabelos

E meus desejos, em nuvens com franjas, todos, na cor lilás.

Agora, crês que há esperança em mim?”

 

De que cruzo mesmo as avenidas, cruzo todas elas,

um farol no pensamento, mulher de alma em cor laranja, coroada.

 

A vida garante o meu olhar torto, granjeando o olhar de vir ver e viver

para além do horizonte, logo ali.

 

Carrego no peito, o inflado ar que este meu coração,

atento e forte, pulsante aos sinais, laranja e lilás,

vai colorindo nos solitários faróis.

 

Olhos cegos iluminam a rua nua. Noite, pode vir agora.


Escrito por Diana-Dru às 22h01
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Terça-feira , 29 de Junho


Especial Diana-Dru: toda maneira de amor valerá !

 


 

Minha idéia sobre amor

nasceu desengonçada e sem jeito

despenteada como a tua cabeleira,

uma cascata de noiva

espalhando-se sobre meu peito-leito

 

Meus medos, todos eles,

enredados em finos fios

desfiados um a um

 

Meus primeiros carinhos,

ávidos, confusos, espalhados

serpentearam um pensamento

que tinha a exata

cor dos teus fios castanhos

 

Súbito, foi esse clarão dourado,

repentino, assustado

que caiu sobre mim

como um cacho cheio,

de finos carinhos eletrizados:

 

é isto então, o amor ?

 *para Formiga e Doguinho, Feliz Aniversário.


 

Escrito por Diana-Dru às 11h18
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Navegante de mim by Diana-Dru


tuas mãos

sobre mim

navegam sem bússola.

teu tato encantado

vencendo recifes

toma-me ilha.

teu olhar azul

sobrevôo em alma litorânea

iça velas.

um cruzeiro ao sul

primeiras estrelas

pra quem busca farol.

teu corpo

agora tem porto

no cais da tarde.


Escrito por Diana-Dru às 09h48
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Quinta-feira , 17 de Junho


Especial Diana-Dru


Sou aquarela

têmpera resolvida

ponto vermeil que se espalha

Sou velharia e vanguarda

Sou passado crítico

e procura angustiada

Sou perene

passageira

eterna cor

diluída em água

Sou Minas de emoção

oil sobre tela quente

querente

solvente

ardida

febril

 

Sou assim

Mana Minas Poeta

Mulher Artista

by Diana-Dru pra você sabe quem.


Escrito por Diana-Dru às 20h53
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Quarta-feira , 16 de Junho


Alma


Sir Lawrence Alma-Tadema, 1836–1912  "Frage mich nie wieder"

                   1906, Öl alf Leinwand Privatbesitz

Alma,

tua cor hoje

será laranja.

dourado reflexo

de frutacor

entre os cabelos.

 

E o meu desejo

tolo ele

na cor lilás.

 

Virá nuvem bordada

entre luzes e franjas.

Ascenderá com o sol

ao som de boca sorrindo

alta e clara

para o infinito.

 

 

by Diana-Dru


       

Escrito por Diana-Dru às 22h24
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Terça-feira , 15 de Junho


Diana-Dru pensando FP


  

poesia

quem a procura

nada sabe.

 

poesia

quem a encontra

nada cabe.


Escrito por Diana-Dru às 19h57
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Segunda-feira , 14 de Junho


Diana-Dru passeando entre velhos e novos amigos


Tenho passeado pelos blogs. Há muito pouco tempo no ar, o Diana-Dru, ou eu, fica cada vez mais sensível à diferença que é notória nos textos, estilos. Expressando-me melhor, fico com aquele olhar pasmo sobre o que leio. As transformações vão acontecendo e, claro, é impossível que não nos transformem. Um blog, você não o visita impunemente, acredite.

E estes dias têm sido desconcertantes por muitas razões. O que me leva a ter certeza de que foi mesmo uma boa sugestão essa, a de criar um blog. Como então, eu poderia conviver, conhecer tanta gente ao mesmo tempo? E falo sobre conhecer aqui, no sentido que sei, entendem. Todos precisamos urgentemente revitalizar o mundo ao nosso redor, voltar a manter acesa a chama eloqüente do verbo acreditar, pois nada, nunca, é em vão. Cada um, à sua maneira peculiar, escreve e edita o seu sonho. Nem se precisa corrigir um texto ou verificar se chegamos a dizer realmente tudo o que queremos. Apenas começamos a declarar o que pensamos ou sentimos, e a isto poderíamos até considerar ensaios: os matutinos, os noturnos e aqueles que chegam à madrugada, assaltam os desprevenidos e os que espreitam. Estes esperam que a chama da revelação, da ins-piração, ou que nome desejem dar, sopre-lhes uma frase, uma idéia, um ponto de partida que seja.

A cada dia fico mais contente por descobrir que não leio em vão nem à toa. Tudo tem seu preciso destino. Gosto muito de estar entre vocês todos: os  que conheço muito de perto e os que não conheço tão bem. Isso é o que menos importa. O fato de termos uma vitrine, digamos assim, não é para exibicionismo bobo. Já passamos, alguns, da vaidade de querer mostrar aos outros o que só o tempo constrói na gente. Só o tempo. Implacável? Também. Insensato? Não. Apenas o tempo mesmo, que investe, por si, o necessário até que cada um venha a tornar-se o que de melhor lhe couber vir a ser na vida. Não importa a profissão. Cada um com sua história pessoal. Lembrei-me agora de uma frase do “meu tempo” com Paulo Coelho. Surpresos? É, mas li sim. Impossível compreender um autor ou seu texto, se não lermos o que tem ou não a nos dizer. Cada um com seu cada um. Pois bem, voltando à tal frase,  em  “O Alquimista” o personagem prega que todos temos que cuidar de encontrar a tal lenda pessoal.  Isso me serviu de estímulo para muitas outras coisas. Lenda pessoal... O que seria isso pra mim? Busquei, sim, refletir o que seria a “minha lenda pessoal”. Podem rir, mas o fato é que até o dia de hoje não sei muito sobre ela, é verdade. Mas não fosse permitir-me sentir ou pensar mais demoradamente sobre isso, talvez jamais viesse a perceber que, se todos temos uma, eu precisaria também encontrar a minha, para que nada na minha vida apenas passasse por mim. Afinal, eu vim para viver! Hoje, mais ou menos sei o que todo mundo já cansou de ler e ouvir: de que o tempo é célere, que não nos espera e muito menos permite voltar um olhar muito demorado para trás, porque a vida tem pressa de ser. Porque nós tecemos esta pressa seja na velocidade que for. Compreendo quando poetas afirmam, solenes, que a vida é breve. Brevíssima e cara. Mui cara. Pois este exercício diário do viver convoca-nos todos a fazer o melhor possível para que nada, nem ninguém, apenas passe pela gente. Por isto, vamos escrever, sim. Vamos trocar, sim. Vamos fazer valer a pena o investimento de horas sobre o próprio texto, sobre o texto do outro, porque o outro é um texto que você jamais leria se ele mesmo não se tivesse inventado. E isto é fantástico!

 


o post de hoje vai dedicado. para a Gê, por um haikai que ainda vai estar no ar e para a Loba correndo atrás do vento por conta de um certo "O beija-flor, a flor e o néctar"

Escrito por Diana-Dru às 22h19
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Diana-Dru abrindo a semana com Affonso Romano de Sant'Anna


 

 

Conjugação

Eu falo
tu ouves
ele cala.
Eu procuro
tu indagas
ele esconde.

Eu planto
tu adubas
ele colhe.

Eu ajunto
tu conservas
ele rouba.

Eu defendo
tu combates
ele entrega.

Eu canto
tu calas
ele vaia.

Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.

 

 

* Este poema foi recitado na voz de Tônia Carrero no CD "Affonso Romano de Sant'Anna por Tônia Carrero" da Coleção "Poesia Falada".


Escrito por Diana-Dru às 00h12
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Sábado , 12 de Junho


Diana-Dru no confessionário


Desejei muito escrever sobre esta experiência com blog. Acabei deixando de lado, pra depois. Mas agora, e já é noite, me vem de novo esta perguntinha que não quer calar. Mas pra fazê-la devo contar uma historinha do início. Eu tenho um guru. Quem não tem? Um guru que me inspira a aprender. Sempre gostei do seu estilo e do estilo de muitos outros. Eu nunca quis nem desejei ser poeta, contista, cronista, nada. Mas gosto muito de escrever direito. Seja lá o direito como for. À medida que você vai lendo vai criando também coragem. A palavra para mim é um signo, um signal perfeito. Pode revelar/esconder. Pode triplicar ou tirar tudo de uma vez. Vai depender sempre do tom, da forma, do jeito seu, que ela receba. Há algum tempo, comecei um verdadeiro rodízio atrás da razão para esta angústia besta que invade determinados dias, horas, sempre ao léu. Nada é derradeiro nem decisivo. Me impacientava a vontade que eu tinha de colocar no papel as coisas que vinham e cuja direção era tão incerta. Comecei a conversar a respeito disto com gente que escreve e entende. Entende a tal angústia. Pois bem. O conselho do meu guru foi simples: exercite, escreva, partilhe com outros o que faz e deixe ver o que vai ser. Assim tem sido. Criei dois blogs. Dois que nunca foram vistos. Que guardo não a sete chaves mas simplesmente não são visíveis. Da primeira vez, comecei escrevendo o que me vinha à cabeça. Palavras, palavras e palavras. Mas é óbvio que a palavra, exigente como é, muitas vezes quer ser rimada, em outras tantas, quer ganhar sentido conotativo, em outras mais, quer ser apenas aquilo mesmo. Só uma porção de palavra expressando uma emoção ou não. Não sei fazer rimas. Não sei fazer versos com métrica perfeita. Mas sei falar. E houve um professor meu, na faculdade, que me disse que eu escrevia como falava. Fiquei preocupada. Muito. Ler é uma aventura meio desventura. Se você se embriaga de Fernando Pessoa, fica pensando em quantos você pode vir a ser se quiser. Mas nunca quanto custa isto. Criar um heterônimo é sair de si mesmo e olhar-se de fora. Nascer de novo incomum. Tem também gente como Machado de Assis, que te ensina sem que perceba de pronto, o quão detalhista todos somos. Apegada aos detalhes, sou eu. Outro problema. Enfim, existe muita gente que poderia citar aqui e que tem influência sobre mim. Tem influência porque quando leio seus textos, suas poesias, a palavra deles e seu jeito de colocá-la no texto seja ele poético ou prosa, me comovem, me confundem, me fazem pensar. Poesia é muito complicada de fazer. Compor uma música então, nem pensar se você nada entende de acordes, tons e semitons. Criar é arte. Mas tem tanta gente boa fazendo isto direito que me pergunto, o que eu venho fazer na fila! É, que venho fazer na fila? Queria dizer uma coisa pra o meu guru que me recomendou a volta aos saraus de literatura, lembram? Eu não vivi esta época mas sei que existiam encontros literários interessantes entre gente que hoje é ícone de mais de uma geração. Jamais ousaria falar de Drummond. Mas alguém pode aqui apontar versos tão sintéticos e cheios de estilo quanto os dele? E que não me lembrem Vinícius, que é outro papo. Na verdade, humilde, eu concluo: cada um escreve o que pensa que sente. E como o sentir é vago e subjetivo, vale o que fica. Na verdade, eu quis um blog meio assim, possível. Passível de discussão. Não desejo elogiar nem ser elogiada. Brinco aqui de escrever e aprender a fazer. Ah, e isto aqui, é sim, um desabafo. Ando cansada, vai ver é isto. Eu bem poderia ficar calada, aqui no canto da Diana-Dru, tecendo coisas. Mas não tem jeito.


Escrito por Diana-Dru às 15h42
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Feliz Dia dos Enamorados by Diana-Dru


nada se compara a uma mulher 

irremediavelmente fêmea

feliz nesta condição

ninguém a alcança quando ela se entoca

foge das luzes da ribalta que inventam

porque não existe show mais promissor

do que ser Ela mesma com Ele


Escrito por Diana-Dru às 00h18
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Sexta-feira , 11 de Junho


Ato by Diana-Dru


vem

manda longe minha roupa

acaricia meu tédio

invoca meu sexo

invólucro tesão

 

vem

cala agora minha boca 

míssil torpedo beijo bandido

absorve pecados

explode libido

 

caça-me

exorcizada estou viva

ensandecida sou cativa

loba uivando alto

 

a sensatez incensada

faz jejum da palavra

 

ata-nos

 

 

 

 

Escrito por Diana-Dru às 19h53
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Quinta-feira , 10 de Junho


Forever on my mind.


RAY CHARLES  10/06/2004


Escrito por Diana-Dru às 18h18
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Haikai by Diana-Dru


teu corpo

copo

finda sede


Escrito por Diana-Dru às 11h07
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Quarta-feira , 09 de Junho


Diana-Dru ouvindo MIlton


Estamos à véspera de um feriado cristão. Nem tão cristalino, é verdade. Com tanta coisa acontecendo pelo mundo. Mas e o que temos aqui dentro, não vai contar? Era nisto que estava pensando. Cheguei do trabalho e daí, é fatal. Você vem pelo trânsito, meio que com a alma transbordando de coisas, observa com alguma calmaria, aquele universo de humanos estranhos ao seu coração e pára para pensar. Milton tocava no meu cd-player. Pietá é um dos cds que vem ocupando espaço em meu carro. No meu trajeto diário. A cada dia, uma nova reflexão e um jeito mineiríssimo ensinado pelo Milton, de olhar o mundo e seus estranhos seres. Sou eu um deles. Por que não? É, sou sim. Estranhos e sós, todos somos. Mas não me refiro à solidão comum que todo mundo tenta registrar. Do tipo que só aparece ou é reconhecida se transparece n’alguma dor. Falo da solidão intelectual. Do gestual incomum de quem cria algo. De quem compõe algo. Nunca pra si. Esteja o mundo como estiver. O trânsito aqui onde vivo nem é tão caótico. Dá pra circular feliz, sem estresses absurdos. Mas é aí, exatamente porque você pode olhar à sua volta, que surgem pensamentos, reflexões.

A música do Milton toca e “toca”. Ouço "Quem sabe isso quer dizer Amor". Se ainda não ouviu, faça-o. Aproveite e ouça todo o cd. Milton tem tudo a dizer e sempre "bate" em mim. Apanho com sua poesia e seu ritmo. Me apanho sorrindo sozinha, cheia da inveja boa que o Tunai traduziu tão bem ao escrever "Certas Canções" para o Milton cantar. Tem coisas que a gente realmente gostaria de ter feito, não é? Como não dá para ser tudo nesta vida agora, tentemos ser o máximo possível. Um bom aprendiz dessa gente boa que graças a Deus, está ainda por aqui, ao mesmo tempo que a gente. Vale ouvir e ver Milton. Um trechinho de verso, também vale:

"falar da cor dos temporais/de céu azul, das flores de abril/pensar além do bem e do mal/lembrar de coisas que ninguém viu/o mundo lá sempre a rodar/e em cima dele tudo vale/quem sabe isso quer dizer amor/estrada de fazer o sonho acontecer."


 

Escrito por Diana-Dru às 20h10
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Terça-feira , 08 de Junho


TERÇO-T by Diana-Dru


Terço.

três meses e vinte e três dias

Somo.

é  tua a conta

Fervo.

minha roupa com teu cheiro

Tremo.

três meses e vinte e três dias

Balanço.

pra lá pra cá virada pelo avesso

Gingo.

a espera não tolera expectativa sem tesão.


 

Escrito por Diana-Dru às 20h57
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Diana-Dru brincando com Geórgia (Retalhos e Pensamentos)


Mudei minhas falas, errei endereços

Assentei minha calma

Não sou apenas lúdica, sou astronáutica

Desliguei o som pra captar risada

Saltei amarelinha e fui ter no céu

Inspirei-me de azul pra AUREAR a vida

Escrevi uns versos e castiguei-os com rima

Eu mesma arrumo com quem brincar

Já brinquei no alfabeto e com a letra A

 

Gê, agora a que vier, será.

Quer jogar pedrinha?


Escrito por Diana-Dru às 19h28
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Diana-Dru sem freios nem rimas


Atlantic Darkness by Luís Palma

contesto versos

todos eles

os desafios são verbos

nascer corajosa

derrubar muros

amealhar vida

pois que é da vida

que se precisa

 

um sinal há de vir 

d'algum lugar

do meio do nada 

bem ao centro de tudo

mirando peito

alerta de coração

labirinto

poesia pagã de batismo

rascunhada sem selo 

Escrito por Diana-Dru às 00h50
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Quinta-feira , 03 de Junho


Diana-Dru: Auto-Retrato (2)


Sobre Lara e meu avô

“Os cientistas acreditam que os anfíbios tenham surgido há 350-400 milhões de anos, numa época em que os rios secavam. Eram peixes que possuíam brânquias e pulmões e tinham fortes nadadeiras, que mais tarde se transformaram em patas que lhes permitiam atingir outros rios e lagoas. Existiam também os artrópodos, representados pelos insetos que passaram a ser fonte de alimentação desses peixes. Com o passar do tempo, foram surgindo modificações nesses animais que deram origem aos primeiros anfíbios. A palavra anfíbio significa: anfi = duas e bio = vida. Então, anfíbio = vida dupla.”

 

Verão carioca. Rio 40 graus? Nem tanto assim. Mas era domingo, fevereiro de verão. O carnaval tinha passado e meu avô achou que por bem, era hora de os meus tios trabalharem um pouco. Há muito ele pretendia construir um poço artesanal nos fundos da casa. Reuniu os “meninos”, tudo cabra macho com mais de dezoito e disse:

- Hoje, vamos começar o poço.

A cara dos “meninos” não demonstrava muita alegria e tal. Mas era ele, era o “véio” Manuel falando. Logo, nem pensar em questionar qualquer coisa. Ele sempre tinha muita razão.

Durante cerca de dois meses, trabalharam todos os fins de semana. Eram os únicos dias em que namorada dançava, minha avó dançava e só era chamada pra responder a uma pergunta do meu avô: “Tá pronto o almoço?”

De tanto ela ir até os fundos pra servir água, café e comida, acabou gostando de em vez de voltar pra cozinha, ficar lá, sentada de avental na mão, olhando o jeito do poço que eles construíam. E como não poderia deixar de ser, um dia meu avô resolveu perguntar pra “véia” Biluca o que ela estava achando.

Pronto. Bastou isto e conhecemos então um lado da minha avó que ninguém jamais imaginaria, não fosse o poço: nascia uma paisagista na família, tardiamente mas nascia. E ela palpitou em tudo: desde as samambaias que cismou, teriam que estar plantadas em volta do poço, “pra ficar”, dizia ela, até o musgo que ela trouxe verdinho de algum poço vizinho. Ninguém nunca soube.

Enfim, o poço ficou pronto. Com a ajuda de minha avó Biluca, o poço tornou-se atração da casa durante os almoços de domingo. Todo mundo puxava uma preguiça ali por perto. Num desses domingos, eu estava lá, sentada mais ou menos próxima do poço, admirando o musgo crescendo em volta, ficando cada dia mais verde e, claro, pensando um monte de bobagens que só criança imagina quando se põe a pensar. Foi quando vi a Lara pela primeira vez. Ela estava escondidinha entre as samambaias e mais plantas que minha avó tinha plantado em volta. Era de um verde que destoava da folhagem à sua volta. E era pequenina mas com imensos olhos, sei lá que cor. Pareciam pretos. Mas nunca tive certeza porque havia dias em que pareciam ser meio avermelhados também. Uma bolinha vermelha, outra hora preta.

Fiquei tão admirada com aquela aparição que olhei em volta procurando saber se alguém mais a via ali, parada, olhando pra mim. Não. A conversa continuava solta sobre outras coisas. Ninguém mais tinha visto a Lara, que até então nem tinha nome. O nome veio depois.

A partir deste dia, minha mãe cansou, coitada, de perguntar porque diachos eu queria tanto visitar meus avós a cada santo dia. Eu não dizia nada. Também não mentia. Apenas calava. Morria de medo do meu tio caçula descobrir a rã e aí sim, a vida dela ia ser um inferno.

 


Escrito por Diana-Dru às 23h41
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continuando...


Meu tio era o moleque que não crescia. Grandão mas que ainda brincava com estilingue, soltava pipa e mentia descaradamente. Imaginem o que não faria com a Lara, se a soubesse ali!Eu ia até lá e ficava horas a fio conversando com o espelho d’água. Nem sempre a Lara dava o ar da graça. Ficava muitas vezes, dias e dias sem aparecer. Mas eu sempre ia lá. Sempre que podia e o bom humor da minha mãe deixava. É que ela temia uma queda. A minha, claro. O poço era fundo, não me lembro quanto mas muito fundo.

Depois de duas semanas sem ver a Lara, fui ficando meio triste, meio decepcionada. Eu precisava dividir aquilo que sentia com alguém. Era o meu primeiro grande segredo. E escolhi a ele, claro. Fui até meu avô num daqueles domingos de casa cheia e contei a ele tudo o que sabia sobre a Lara, pedindo imenso segredo. Pra minha surpresa e alívio, ele já sabia dela. Disse-me que fazia uns dois dias que não a via também mas que eu não me preocupasse. Talvez ela estivesse assim porque todo mundo era chamado por um nome menos ela. Coisas do meu avô que me faziam rir. Mas ele sorria e continuava.

- Se pensar em um nome para ela, pode ser que reapareça.

E eu, meninota de tudo mas já cética e machadianamente detalhista, dizia de volta:

- Vô, acha que tem uma rã encantada no seu poço?!

Ele nunca me respondeu a isto. Nem eu esperava. Ambos, depois de partilhar este segredo,  começamos a conquista da rã que morava no poço. Não entendíamos nada sobre sua alimentação, o que a atráia, nada. Mas caçávamos insetos que achávamos, ela poderia apreciar.

E assim, Lara voltou. Um belo dia, apareceu fazendo um enorme barulho. Daqueles barulhos de chamar a atenção. Sorte dela que não era um domingo daqueles cheios. Foi quando eu e meu avô a batizamos. Lara estava enorme. Havia crescido muito mesmo. Estava uns dois tons de verde mais escura e cheia de manchinhas pretas, bem pequenas, como pontos. Ainda era dona daquele par de olhos cuja cor eu nunca soube definir, até hoje.

Durante boa parte da minha infância, a Lara morou no poço, lá nos fundos da casa dos meus avós. Foi mesmo uma rã encantada para mim. E claro, graças à imaginação moleca do meu avô. Que era um homem simples, que entendia mesmo de tudo um pouco. Sabia falar com netas, com gente e com rãs. Hoje, nem o poço, nem o meu vô, nem a Lara existem. Mas a memória guardou tudo. Um verdadeiro passo-a-passo.

Não acredito em reencarnação. Mas se os cientistas estão certos, a Lara deve ter vivido duplamente: feliz e feliz, lá naquele poço, cercada pela minha curiosidade de menina e pela transparente realidade que meu avô inventava pra que a vida parecesse melhor. E era sim.


 

Escrito por Diana-Dru às 23h39
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Diana-Dru: Série Auto-retrato (1)


-

 

Vô, onde fica essa tal rua do lavradio, hein?

 

O vô dela a olhou como se nunca a tivesse visto. Justo na hora da soneca!

Ajeitou-se na rede e pôs-se a pensar, pensar e pensar.

Com muito custo, levantou-se e fez a pergunta. Ele sempre fazia uma. Buscava razão boa pra tudo.

- Pra que vc quer saber, minha santa?

A menina, sabendo que tinha conseguido sua atenção, contou-lhe a história mais comprida que o vô dela já ouvira.

Mas  façamos um parêntese para registrar aqui, que era disso que o vô dela gostava na “sua santa” neta, como ele a chamava: era da perguntação, daquela mania de querer saber de tudo um pouco e tinha que ter timtim por timtim.

- Pois bem, minha santa. Vou lhe dar mais do que me pede. Vai conhecer além da Rua do Lavradio!

Levantou-se, ajeitou a barrigona dentro da calça de tergal azul marinho e sumiu pela porta da sala.

A menina sentou-se na rede e ficou a balançar os pés. Cada vez mais para o alto. Adorava fazer perguntas pro vô. Ele sempre sabia tudo, tudinho. Tinha resposta até pra explicar o desaparecimento da Lara, uma rã que morava no fundo de um poço, aberto pelo próprio vô mais os tios, no fundo da casa.

O vô voltou, sentou-se bem junto dela na rede e colocou um livro em suas mãos.

A menina olhou para o tal livro. Não se parecia com os que estava acostumada a ver. Era de capa dura, marrom, pesado e tinha  a primeira página (o prefácio), rasgada.

- Que isso, vô?

E o vô respondeu pacientemente:

- Você não queria saber sobre a Rua do Lavradio? Pois então. Nesse livro você vai saber muito mais sobre esta rua e muitas outras, todas lá pelo centro da cidade. E vai entender mais sobre a cidade onde você nasceu, onde vive, estuda e tem amigos.

A menina tornou a olhar o livro e só fez dizer um “tá bem”.

Levantou-se da rede e deixou o vô retomar o cochilo dele.

 

Durante dias e dias, a menina não lembra quantos, ela leu o livro todo. Gostava de ler tudo. Mas este livro era diferente. Era de um tal de Machado de Assis que contava VARIAS HISTÓRIAS. E foi desse jeitinho, que a menina depois de crescida, descobriu que o avô foi quem realmente lhe deu o que ler. E ela cresceu, sabendo muito mais sobre a sua cidade e suas histórias de ruas, do que muitas meninas na mesma idade que ela.

Ter um vô assim foi muito importante pra menina Diana-Dru.


Escrito por Diana-Dru às 22h20
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Diana-Dru manda recado: quem gostou de ler o Ruy aqui, vai descobrir mais sobre ele lá...


SOFRER
(trecho de e-mail)

autor: Ruy Barboza


Chorar, sentir, olhar para o que sinto e usar o espaço disponível é o que faço desde que descobri que tinha direito a sentir, e que é um dos meus poucos patrimônios. A possibilidade de ser terno, de amar, mesmo quando, seja por que razão for, esse amor não pode ser exercido, pode apenas ser sentido. E te garanto, minha vida sempre teve mais desencontros que encontros, como, lembro de repente e de passagem, dizia o Vinícius no Samba da Benção. E a preencho com os encontros possíveis. A fisioterapia, os filmes, os amigos, as festas, os ensaios de maracatu (vou levar o livro e o video para eles verem, prometi ontem) agora o meu blog, os shows de música (fui a um ontem, vou a outro hoje). Mas ainda sobram os momentos de solidão, de tristeza, do que está no fundo e ora vira figura, primeiro plano.
E não há erros, nem acertos, quando se fala de sentimento. Há a vida e seus caminhos, que se fazem na caminhada.


Escrito por Diana-Dru às 21h19
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Diana-Dru de olho nos Amigos ...


Quando pensei sobre a idéia de refazer o blog (meu ex-blog, nem lembro o endereço e não era aquele zip net, não) até então, a idéia era um espaço "meu". Para escrever o que me trouxesse a tal da "ins-piração". Nada disso vai acontecendo. Adoro ler. Me impressiona, emociona, saber que há tanta gente boa e que alguns, são meus amigos. Gente por quem tenho imenso carinho. Gente que escreve. Sem pretensão. Sem intenção. Apenas esta mesmo. Escrever. Um beijo, Ruy. Que bom a gente ter se encontrado.


INVEJA DO CHICO?

by Ruy Barboza

 

Quando minha namorada ouve o Chico Buarque, costumo lembrar de duas pessoas: Ernest Hemingway e Eduardo Barreto. Hemingway diz que, se você quer que sua mulher tenha de você a imagem de um homem corajoso, nunca a leve para ver uma tourada. E o artista gráfico Eduardo Barreto é um dos muitos homens da minha geração que tenta achar defeito no Chico. De vez em quando Eduardo nos puxava para um canto: “Parece que a coisa agora é séria. Ele está com um tumor no cérebro”.
Caetano Veloso também tentou. No livro “Vereda Tropical”, lembra que ele e Chico ficaram conhecidos ao competir no “Esta Noite se Improvisa”, da velha TV Record. No programa, a produção dava uma palavra, e ganhava pontos quem lembrasse primeiro uma música cuja letra contivesse aquela palavra. Caetano diz que Chico só ganhava dele porque, muitas vezes, compunha músicas na hora, enganando a produção. Pura inveja, evidentemente - e perfeitamente compreensível, mesmo num compositor genial como Caetano. O conhecido incidente no Florentino, em que Chico deu uma valente cusparada em Millôr Fernandes, começou, para quem não se lembra, com a infeliz frase de Millôr, publicada nos jornais da época: “Não confio em Chico Buarque nem para tomar conta do meu cachorro”...
A inveja do Caetano, como se vê, é disfarçada, ressentida, vem num aparente elogio à capacidade de improvisação de Chico. A de Millôr apareceu raivosa, direta. Despretensiosamente, quero dizer que acho que os entendo.
Talvez se eu falar da minha inveja fique mais claro.
Morro de inveja do Caetano. Lembro-me, por exemplo, de quando ouvi pela primeira vez o disco de Londres, com “Maria Bethania” e “London, London”. Ao lado da emoção cívica e da impotente dor política que o exílio de Gil e Caetano nos causavam, e da admiração pela explosão da nova etapa do talento de Caetano, morri de inveja. Já quis ser cantor e compositor, tenho minhas musiquinhas. Meu sucesso ultrapassou as fronteiras domésticas, e duas pessoas - um vizinho e uma vizinha - me elogiaram. Mas estou longe de ser até mesmo, digamos, um Martinho da Vila. Caetano, então, nem pensar...
Tenho também um inveja assumidíssima do Millôr. Da erudição, da criatividade, da genialidade do Millôr. Inveja que começou na minha infância, com o Pif-Paf, em “O Cruzeiro” - “cada número é exemplar, cada exemplar é um número”. Eu lia, adorava, e quantas vezes, lembrando das frases de Millôr no meio das aulas, tinha de me conter, para não ter de explicar aos professores do que estava rindo - por exemplo: “alguns ficam na cama porque estão doentes; outros, porque se sentem muito bem”. Adolescente, tinha a fantasia de escrever coisas brilhantes como as do Millôr. Tenho aqui minhas tiradas, tão bem sucedidas quanto as minhas músicas, em casa e nas vizinhanças. Mas já sei que nunca vou escrever nem sequer como o Carlos Heitor Cony - quanto mais o Millôr Fernandes...
Muitas vezes, depois de ouvirmos o Caetano, falo da minha inveja. Minha namorada diz que cada um tem suas qualidades. Por exemplo, eu sou muito mais modesto que o Caetano, segundo ela. E a modéstia é uma qualidade importante. Quando falo da minha inveja do Millôr, ela diz que eu sou mais bonito do que ele. Não digo que não seja bom ouvir isso, mas sempre tenho uma sensação de estar sendo enganado.
Mas nunca tive inveja do Chico. Quanto ao Chico, sou tomado por um sentimento muito diferente da inveja. Nunca pensei em compor como o Chico, nem em ser bonito como o Chico, nem em escrever como o Chico.
Na verdade, eu queria mesmo é ser o Chico. É isso aí. Em vez de o Chico Buarque nascer, eu teria nascido, no lugar dele, e eu seria ele, inclusive com o nome dele, tudo direitinho. E se ele quisesse nascer também, podia nascer no meu lugar, e ele seria eu, é claro. Problema dele.
Quando falo disso para a minha namorada, ela me olha com um olhar pensativo. Acho que ela me entende, pois não diz nada, nada. Fica quietinha.

*publicado originariamente na revista “Caros Amigos”


Escrito por Diana-Dru às 20h55
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Quarta-feira , 02 de Junho


NONSENSE by Diana-Dru


qualquer vestido

minha melhor roupa

você rasga

cabo a rabo

a velha sede

faz-me bicho

gato sapato

por cima  presa

em baixo rendida

minha resposta

é não

sim   não

sim

 


Escrito por Diana-Dru às 19h16
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HAIKAI by Diana-Dru


Um beijo aqui

outro a colar

dá cá, vai


Escrito por Diana-Dru às 00h16
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Terça-feira , 01 de Junho


Especial Diana-Dru: Leminsky


fotografia by Luís Palma

"Eu, hoje, acordei mais cedo

e, azul, tive uma idéia clara.

Só existe um segredo.

Tudo está na cara."


Escrito por Diana-Dru às 20h41
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